DAS CARTAS À REDAÇÃO ÀS REDES SOCIAIS

Houve um tempo de um passado recente em que o cidadão ou leitor tinha acesso restrito a quem comunicava ou ao jornal da sua cidade para apresentar queixas e sugestões. O que existia era só o espaço de ‘Cartas à Redação’, onde as reclamações dos serviços públicos e privados eram espremidas em poucas linhas de texto com temas relegados na parte nobre dos periódicos.

Questões urbanas que pareciam irrelevantes para os governantes estavam registradas nesta seção, num canto de página de pouca visibilidade. Vivia-se a ditadura da falta de espaço jornalístico para quem dava sustentabilidade à imprensa.

Esse tempo ficou para trás. Hoje, a comunicação direta do produtor de conteúdo e o consumidor/leitor deu um poder inimaginável aos que tinham de ler ou ouvir passivamente, com pouca chance de ter voz para uma resposta ou comentário. Agora, as ‘Cartas à Redação’ turbinadas são as redes sociais. Nelas, a mensagem é captada pelo leitor que reclama, contesta e até sugere nova mensagem.

Há registros da saga das cartas manuscritas ou datilografadas, que levavam dias ou meses para chegar ao destinatário, até a chegada das redes sociais instantâneas, como o Whats App (o popular Zap), o Telegram, o Facebook, o Instagram e outras. Foi instalada a democracia da palavra: quem fala o que quer, pode ouvir muitas vezes o que não quer. Mas a sua voz será ouvida.

Tudo mudou na transição das cartas para as redes sociais: encurtou distâncias, introduziu a escrita informal e sem limite de espaço, em linguagem direta e até acrescentou emoções visuais de afeto e recursos não-verbais, como emojis, GIFs e áudios, para enriquecer o contexto emocional da mensagem.

Esse ‘nariz de cera’ do jornalismo ou preâmbulo é para falar do curioso livro do escritor Rogério Mota, que durante décadas escreveu cartas à redação do ‘Diário de Pernambuco’. “Muitas nasceram de um incômodo imediato: um buraco na rua, um semáforo quebrado, um trânsito desorganizado, uma resposta mal-dada por um órgão público.

Outras surgiram de reflexões mais amplas: política, comportamento, cidadania, futebol, cultura. Todas, porém, tinham algo em comum – eram escritas no calor do momento, com o desejo simples de ser ouvido”, conta Mota em seu livro. Para o escritor, “essas cartas não são apenas sobre os fatos que as motivaram. Elas retratam um tempo. Cada texto guarda, ainda que de forma simples, um fragmento da vida cotidiana de uma cidade, de um estado, de um país.

Um semáforo quebrado hoje pode não ter importância alguma – mas ele revela como funcionava (ou não funcionava) a gestão pública naquele momento. Um engarrafamento específico já não existe – mas o problema da mobilidade urbana continua sendo um desafio permanente. Uma reclamação pontual pode parecer pequena – mas, somadas, essas pequenas vozes formam um painel muito mais amplo da realidade”.

Rogério Mota lembra um aspecto que considera importante: a persistência de certos temas. “Ao longo dos anos, percebo que muitos problemas se repetem. Mudam os governos, mudam os nomes, mudam as circunstâncias – mas algumas questões continuam presentes. Isso não é apenas um sinal de falha; é também um convite à reflexão. O que evoluímos? O que permanece igual? O que ainda precisamos resolver?”

No prefácio de ‘Memória das Cartas’, o jornalista Ângelo Castelo Branco, membro da Academia Pernambucana de Letras, afirma que “a publicação não é um livro de grandes eventos históricos – e não pretende ser. Seu mérito está justamente naquilo que muitas vezes escapa aos grandes relatos: o cotidiano, o imediato, o aparentemente pequeno. Mas é desse material que, em última instância, se constrói a história real de uma sociedade”. É isso.

Por Antonio Magalhães – Jornalista

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