PERNAMBUCO MORTAL, MORTAL …

É difícil entender a inoperância dos burocratas oficiais, dos acadêmicos de televisão e dos pesquisadores dos mares para resolver ou pelo menos atenuar o problema causado pelos ataques dos tubarões no litoral de Pernambuco, especialmente na praia de Boa Viagem. O Estado é hoje o epicentro do conflito biológico mais letal do país.

Não se tem notícia de tantos ataques de tubarões em toda costa brasileira. Desde 1992, o litoral pernambucano registrou 84 incidentes, dos quais 27 foram fatais. Somente na Praia de Boa Viagem contabilizam-se 25 ataques ao longo da série histórica.

A única iniciativa de controle destes predadores foi da Universidade Federal Rural de Pernambuco que criou o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). O barco do comitê capturava o peixe, inseria um chip com GPS e o soltava para observar sua rota pelo canal costeiro perto da orla. Um projeto hoje desativado. E só..

No momento, a busca de responsáveis pelo aumento dos ataques na orla da Região Metropolitana do Recife concentra-se nos construtores do Complexo Portuário de Suape, no litoral sul do Estado, que promoveram a alteração do ecossistema pelo aterramento de manguezais e a dragagem do estuário do rio Jaboatão, pondo fim ao berçário da espécie Cabeça-Chata. Tudo verdade.

A instalação portuária teve, de fato, um caráter predatório, alertado pelos chamados Ecochatos que não queriam a construção do porto. Mas ele foi feito e abriga hoje milhares de trabalhadores e é um ponta-de-lança do crescimento de Pernambuco. Mas poderia ter sido construído atentando para as consequências da obra. Os cuidados tomados, no entanto, foram insuficientes. E os pernambucanos perderam a praia e o mar, espaços de lazer e saúde.

E devem ser retirados na lista de vilões as espécies Cabeça-Chata e Tubarão Tigre, envolvidos na maioria dos ataques. Parcialmente, Suape é responsável. Mas, na verdade, o vilão mesmo desses acontecimentos é o “tempo”, a busca pelo desenvolvimento econômico, o crescimento populacional, o aumento da produção de lixo e outros dejetos, saldo de uma sociedade moderna.

Portanto, não vale a pena reclamar do que já passou. A conversa hoje deve ser outra: como amenizar os efeitos nefastos desses incidentes. Uma das ações imediatas deve ser a despoluição do rio Jaboatão – atualmente um lixão flutuante -, o que restauraria o estuário e seus manguezais. É possível? Não se sabe, pois se existem planos de limpeza dessas águas jamais saíram do papel.

Outra opção seria instalar em pontos de Boa Viagem redes de proteção contra tubarões, como já existem nas áreas de risco na China e na Austrália. Uma sugestão defendida até pelo Ministério Público Estadual. A iniciativa, no entanto, foi rechaçada pelos ecochatos sob a alegação de que essas redes poderiam capturar, como efeito colateral, tartarugas marinhas ou outras espécies não letais.

Um argumento irritante de quem despreza a vida humana.  Na hipótese de enroscamento nas redes desses animais, caberia ao poder público a liberação deles e a fiscalização da segurança da proteção e sua manutenção. Será que uma vida humana vale menos do que uma tartaruga?

Já a solução proposta ontem, neste blog, pelo deputado Luciano Bivar (MDB-PE) de exterminar parte dos tubarões em Pernambuco, após os incidentes desta semana, foi rechaçada pelos mesmos ambientalistas que só reclamam e não fazem nada. Eles consideram um absurdo a proposta do parlamentar. E é mesmo. Esses especialistas dizem que o extermínio da população de tubarões seria, além de ineficiente, uma medida “ecologicamente deturpada”, que causaria mais desequilíbrio ambiental.

Bivar sonha com uma situação do passado que não existe mais, nem existirá no futuro. Ele disse: “não sou biólogo nem ambientalista, mas que cresci na Praia de Piedade, e que sempre houve botos, cardumes infindáveis de sardinhas e peixes mil. Agora, nada disso”.

e não for levada a sério esta questão por autoridades e ambientalistas, a beleza da orla oceânica de Pernambuco vai ser só para os olhos, como no poema de Carlos Pena Filho sobre Olinda. As águas do mar, em breve, serão apenas uma lembrança, numa paródia trágica da poesia, ou um quadro na parede, uma foto, um post no Youtube.

Por conta de três décadas de descaso, a Praia de Boa Viagem e a orla dos arredores metropolitanos são hoje só areia para quem a frequenta. O banho de mar se tornou uma atividade de risco, que pode mutilar ou matar. Um mergulho para se refrescar pode ser fatal no encontro com o maior predador do oceano. Esse peixe cartilaginoso, que habita o planeta há cerca de 400 a 425 milhões de anos, muito antes dos dinossauros e que sobreviveu até agora por sua adaptabilidade aos contextos mais hostis.

O tubarão agora faz parte do dia a dia do pernambucano. É assunto doméstico, está nas placas de aviso na praia, nos folhetos turísticos e o viajante tem de tirar uma foto diante de um aviso de perigo no mar para comprovar sua passagem por Boa Viagem. Por enquanto é assim. Quem tem condições de garantir a segurança dos banhistas, não o faz.

Presume-se que a contagem de ataques não será afetada. Só crescerá, embora os humanos não sejam o alimento preferencial dos tubarões. Mas a mordida em pessoas é exploratória, às vezes fatal pela dimensão afetada e alta possibilidade de infecções.

São eles, no topo da cadeia alimentar, que controlam as populações marinhas de outras espécies, evitam a propagação de doenças ao se alimentarem de animais doentes ou mortos, e ajudam a manter a saúde dos recifes de corais. E nós entramos sem pedir licença no habitat do predador. Um descuido e tudo pode acontecer. É isso.

Antonio Magalhães – Jornalista

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