MAGIA ESCONDE CRIMES NO BRASIL

“Conheça o Brasil Mágico”. Não se trata, entretanto, de qualquer convite ao turismo no nosso país. Mágica aqui não são formas de arte e entretenimento, baseadas na agilidade, destreza manual e ilusão para desafiar a realidade. O ilusionismo nacional é outro: o que o poder esconde para roubar e se manter no comando do país. 

A lábia e a distração da atenção vêm criando truques políticos e até institucionais. As miragens, enganos e camuflagem revelam cortinas de fumaça que escondem o mundo real, somem bilhões de reais, fazem desaparecer crimes e criminosos, encarceram e desencarceram corruptos e substituem suspeitos por outros. E deixa visível à plateia atônita a impunidade para quem burla a legislação, seja ele guardião ou violador da lei.

Esta semana a Operação Miragem da Polícia Federal apurou que o Banco Digimais adotou práticas semelhantes às do Banco Master ao inflar ativos sem lastro e manipular balanços para driblar os órgãos de controle. Uma típica fraude bancária semelhante a outras acontecidas com os bancos nacionais de tempos passados.

De acordo com as investigações policiais, em um dos casos verificados, o banco, que é controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, elevou o valor de um ativo adquirido em 2023 por R$ 31 milhões para R$ 230 milhões, o que gerou um patrimônio fictício de R$ 199 milhões. A ação resultou no bloqueio de até 670,3 milhões de reais em bens e valores dos investigados, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos alvos da investigação.

Mas diferente do que vem acontecendo com as investigações da fraude do Banco Master, o caso do Digimais só envolveu Macedo, seus pastores e fiéis e foi uma excelente cortina de fumaça para tirar o Master das manchetes envergonhadas da imprensa. No banco quebrado do líder evangélico não apareceram até agora autoridades dos três Poderes, empresários e artistas como beneficiários de esquemas financeiros.

O brasileiro viu neste episódio mais um truque de mágica. Uma manipulação da realidade, que nem o super mágico David Copperfield arriscaria fazer. É impossível a imprensa governista querer comparar os casos do Master e Digimais até pelo lado financeiro.

O colapso do Banco Master está associado a um rombo e a desvios estimados em mais de R$ 55 bilhões, sendo considerado a maior fraude bancária da história do Brasil. Desse montante, investigações da Polícia Federal apontam que o volume de operações com indícios diretos de fraude ultrapassa os R$ 12 bilhões.

E assim segue o espetáculo de magia apresentado no Brasil. Sumiu do noticiário a fraude do INSS que promoveu descontos associativos diretamente nos contracheques de aposentados e pensionistas sem o consentimento prévio dos segurados. Sob a falsa promessa de benefícios como descontos em farmácias ou auxílios funerários, o dinheiro desviado gerou fortunas para os operadores. O valor do roubo é estimado em R$ 6 bilhões.

Os responsáveis pelo roubo, laranjas, operadores financeiros, servidores públicos, a cúpula do INSS e agentes políticos entraram na cabine mágica e desapareceram. Juntamente à fuga premeditada, a CPMI do INSS que investigava o caso foi encerrada antecipadamente para não aprofundar a investigação sobre os larápios.

Os corruptos e ladrões do dinheiro público vêm praticando ilusionismo em grande escala há mais de duas décadas. Entre 2003 e 2016, os governos do PT foram marcados por uma série de escândalos que chocaram o país e deixaram um rastro bilionário de dinheiro público desviado.

A Operação Lava Jato, considerada a maior investigação de corrupção da história do Brasil, revelou um esquema bilionário de cartel, superfaturamento e corrupção envolvendo a Petrobras e grandes empreiteiras. Empresas pagavam propina para obter contratos com a estatal. Os valores eram repassados a partidos políticos – incluindo o PT –, campanhas eleitorais e agentes públicos.

O presidente Lula chegou a ser condenado e preso em primeira e segunda instâncias, mas suas sentenças foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou a Justiça Federal de Curitiba incompetente para julgar os casos. Posteriormente, vários dos processos foram arquivados ou prescritos. Num passe de mágica saiu da prisão para voltar à Presidência da República. E todo o processo da Lava Jato sumiu magicamente debaixo de togas superiores.

O Brasil é ou não é um país mágico, onde a punição por corrupção e abuso de poder é uma quimera? Os criminosos não acreditam que ela venha ocorrer. E a sociedade desacredita em prisões de culpados ou devolução do dinheiro roubado.

No mundo da magia, o profissional nunca revela seus segredos justamente para preservar o mistério e o encantamento do público. Aqui, a Justiça e a Polícia Federal, quando querem, ao contrário dos mágicos, difundem segredos escabrosos que, às vezes, somem por puro ilusionismo. Triste Brasil. É isso.

Por Antonio Magalhães – Jornalista

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