Sabe-se que a maior artimanha atribuída ao diabo é convencer o mundo de que ele não existe, segundo o poeta francês Charles Baudelaire. Essa ilusão permite que o mal opere livremente sem levantar suspeitas, levando a humanidade a agir contra os próprios princípios por pura falta de vigilância.
Ao renegar ontem, num suposto vazamento de áudio, sua qualificação de “esquerdista” para o mundo político nacional e de fora do país, o presidente Lula mostrou-se para alguns chefes de estado na reunião do G7 como um mero sindicalista atento aos apelos sociais.
A divulgação da fala de Lula, na verdade, desviou a atenção da mídia brasileira para a desimportância da sua presença no encontro do grupo das maiores economias do mundo, do qual ele sequer faz parte. Esteve ali apenas por convite do seu parceiro Emanuel Macron, presidente da França.
Lula seguiu as “artimanhas do diabo” referentes às estratégias e ilusões para tentar enganar e afastar as pessoas de seus propósitos. A imprensa amestrada mudou o foco imediatamente, deixando de analisar o encontro do G7, para, com a dica lulista, começar a montar comentários com os jornalistas “amigos” na tentativa de explicar o “não esquerdismo” do presidente.
Para os ouvintes do G7, ele chegou a dizer que o centro político era a melhor opção para governar. Só que desmentir o novo posicionamento de Lula é uma tarefa inglória. O colunista do UOL, Josias Souza, alegou que ele é só um pragmático. Para cada plateia tem uma conversa, o que é verdade.
E para afastar a qualificação de político de esquerda ou comunista, Lula revelou aos ouvintes do “petit comitê” vazado, que, nos seus governos, os bancos ganharam muito dinheiro. Tem razão. Tratou muito bem os banqueiros que ainda hoje financiam a esquerda nacional.
Contudo, o argumento inconsistente de Lula é contestado pelo fato de ele e o cubano Fidel Castro serem responsáveis pela criação do “Foro de São Paulo”, em 1990, com o objetivo de reunir partidos e grupos de esquerda para remontar no continente o que foi destruído com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria e da União Soviética.
Apesar de hoje ser de conhecimento público, a existência do Foro de São Paulo foi negada por Lula e partidários da esquerda durante anos. Seu objetivo inicial era aumentar a integração entre países da América Latina e do Caribe em busca de uma coalizão dos partidos de esquerda da região. Nunca houve, contudo, restrições à participação de organizações terroristas ou suspeitas de narcotráfico.
O importante para o grupo era a chegada de partidos de esquerda ao poder, como registrou o site do Brasil Paralelo. Em carta enviada por Lula ao “Foro de São Paulo” em comemoração aos seus 30 anos de existência, em 2020, ele saudou o sucesso da iniciativa: “Não imaginávamos inicialmente que esse encontro de partidos e movimentos de esquerda chegasse onde chegou”.
No início da década de 2000, diversos países latinos eram governados por políticos de esquerda ligados ao “Foro de São Paulo”: Lula no Brasil; Cristina Kirchner na Argentina; Fidel Castro em Cuba; Hugo Chávez na Venezuela; Rafael Correa no Equador; Evo Morales na Bolívia; Michelle Bachelet no Chile; e Daniel Ortega na Nicarágua.
E ainda há quem acredite que Lula não é esquerdista. Para o presidente, a militância na esquerda não lhe empareda neste campo político, conforme sua conversa no G7. O “nada consta” de que não é o que dizem dele, está comprovado no favorecimento “pragmático” dos seus governos a bancos, a grandes conglomerados empresariais do país, a ONGs internacionais e a China, o maior parceiro comercial e político.
Parafraseando Baudelaire, a maior artimanha de Lula é convencer os brasileiros e estrangeiros babacas que sua qualificação de esquerdista é equivocada. Será? É isso.
Por Antonio Magalhães – Jornalista



