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Mesmo sem expectativa de escalada imediata na fronteira com a Venezuela, a operação militar dos Estados Unidos, que resultou na captura de Nicolás Maduro, acendeu um alerta estratégico em Brasília. Militares brasileiros vêem o episódio como um marco regional, enquanto o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca calibrar uma resposta pública que condene a violação da soberania venezuelana, sem ampliar atritos com Washington às vésperas do ciclo eleitoral.
Fontes do Planalto afirmam que a avaliação é que o Brasil tenta reduzir o risco de ser arrastado para um cenário de coerção regional. A principal preocupação é a criação de precedentes para intervenções militares na América Latina. Uma eventual nova onda migratória em direção a Roraima também entrou no radar do governo Lula como possível desdobramento indireto da crise.
Do ponto de vista operacional, no entanto, a leitura das Forças Armadas é que o país dispõe de instrumentos para absorver um eventual estresse humanitário. A Operação Acolhida, iniciada em 2018 para receber venezuelanos, é citada como referência para a gestão de fluxos migratórios em larga escala. Além disso, o dispositivo militar na Amazônia já vinha sendo ajustado desde 2023, em razão da crise no Essequibo, região disputada entre Venezuela e Guiana.
Esse movimento prévio reduziu a necessidade de reforços emergenciais após a ação americana. Na segurança pública, o MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) renovou por 180 dias, a partir de 11 de janeiro, a presença da Força Nacional em Boa Vista e Pacaraima. A atuação no Estado é contínua desde 2018 e inclui frentes ligadas à Terra Indígena Yanomami e ao combate a crimes ambientais.
A operação dos EUA reforçou discussões antigas sobre a capacidade de defesa do Brasil. O país investe pouco mais de 1% do PIB no setor – percentual inferior à média global, próxima de 2%. Países da Otan – Organização do Tratado do Atlântico Norte assumiram compromisso de elevar os gastos para 5%.
O orçamento do setor no Brasil está em queda contínua há pelo menos 10 anos. Com isso, grande parte é destinada a salários e pensões, o que limita investimentos em equipamentos e tecnologia. Projetos estratégicos sofrem atrasos recorrentes. Um dos exemplos é o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras, do Exército – Sisfron que avança mais lentamente do que o planejado por restrições orçamentárias.
PODER DE DISSUASÃO EM XEQUE
Entre oficiais brasileiros, chamou atenção a ausência de reação militar da Venezuela. O país já foi considerado dono de um dos sistemas antiaéreos mais robustos da América do Sul, mas não apresentou resposta visível à ação norte-americana. A leitura é que faltou capacidade de dissuasão.
Para militares, o episódio reforça a necessidade de manter meios mínimos para impor custos a qualquer agressor. O coronel da reserva Paulo Filho, mestre em Ciências Militares, resume o conceito nos “3 Cs da dissuasão”: capacidade, credibilidade e comunicação. Sem a percepção de que o país usará seus meios, a dissuasão perde efeito.
A avaliação é que o Brasil não teria como impedir a entrada de uma potência nuclear em seu território, mas pode elevar o custo de permanência. A dissuasão brasileira é considerada “relativa”, baseada na dimensão continental, na profundidade estratégica e na complexidade logística. O episódio também reacendeu críticas à inteligência brasileira.
Especialistas defendem maior integração entre serviços secretos e operações militares O Brasil precisa olhar para essa ação em termos operacionais e repensar o papel da inteligência”, diz o almirante da reserva Ruy de Almeida Silva, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense. A Agência Brasileira de Inteligência – Abin não comentou o tema, sob a justificativa de sigilo da atividade.
Foto: Sérgio Lima/Poder360




