O humor na política brasileira está sem graça. A contaminação ideológica retirou aspectos críticos e reflexivos das charges e textos humorísticos. Hoje há uma disputa entre os políticos e os profissionais do humor.
No Reino Unido, como conta o correspondente do Estadão, Gilles Lapouge, há os “sketch writers”, uma determinada categoria de jornalistas dos grandes jornais que são pagos para debochar com humor dos políticos britânicos.
Hoje eles reclamam da concorrência desleal dos parlamentares. Segundo Lapouge, eles proferem discursos vazios e sem graça. São caricaturas deles mesmos, explica.
Por aqui não temos os “sketch writers” mas boa parte dos humoristas perderam sua razão de ser. Para comentar o tema, convidei dois ícones do humor político local: o chargista Laílson de Holanda e o artista Walmir Chagas, o primeiro a ter um personagem cheio de graça numa campanha política, o Mané da China na campanha de Carlos Wilson (1998) à Prefeitura do Recife e o Véio Mangaba na de Jarbas à PCR nos anos 90.
O Mané da China com sua performance incomodou demais o então prefeito e candidato à reeleição Roberto Magalhães. Mas não deu vitória a Carlos Wilson. O vencedor do pleito terminou sendo o petista João Paulo. Enfim, o eleitor não foi na onda da galhofa.
Já Lailson tem uma visão mais ampla da influência do humor junto ao eleitor. Até antes da Internet, diz, os jornais impressos tinham enorme importância na formação da opinião do público e as charges eram fatores importantes no resultado da escolha dos eleitores.
“A partir da era digital, no entanto, as pessoas passaram a se orientar dentro de “bolhas” específicas onde a opinião crítica passou a ser cada vez menos importante, pois cada grupo busca apenas a sua própria bolha e o grupo que concorda com suas opiniões, mesmo que seja através de notícias falsas ou distorcidas”, explica Laílson.
Segundo o chargista, os jornais impressos, ao invés de aprofundarem análises e opiniões, partiram na direção contrária, considerando que opiniões políticas críticas reduziriam sua possibilidade de negócios e faturamento, principalmente junto às empresas estatais e órgãos públicos.
“Assim, diz, a charge política foi um dos primeiros espaços jornalísticos a sofrer as restrições causadas por essa atitude, fazendo com que uma análise bem-humorada da situação política perdesse poder de comunicação, deixando de ter reflexos imediatos no resultado de votações e eleições”.
O humor feito por militantes políticos não é bem visto por Laílson nem por Walmir Chagas. “Mas ele existe, afirma Walmir, contudo, eu não acho que possa existir um humor a favor. Para mim deve ser do contra e bem crítico. Humor de verdade é usado para demolir e não para elogiar alguém”.
Para Laílson, houve nos últimos tempos a perda da visão crítica dos humoristas, prevalecendo a polarização dicotômica dos grupos que buscam o controle do Estado.
“Para os cartunistas de esquerda, a manutenção de velhas bandeiras significa a modernidade e para os cartunistas que estão contra esse posicionamento, a atitude de dar apoio à mudança atual não encontra respaldo na realidade para sustentar suas opiniões.
O produtor de humor, portanto, deveria apenas opinar sobre erros e acertos das pessoas públicas, mantendo o necessário distanciamento crítico, sem influência de qualquer tipo de militância”, acrescenta Laílson.
Quem frequenta as redes sociais deve ter visualizado inúmeros “memes” supostamente humorísticos. Esta seria uma nova forma de humor políticos? Walmir Chagas, o Mané da China ou Véio Mangaba, acha alguns memes interessantes mas entende que a a maioria é grosseira e pouco criativa.
Já Laílson vai mais longe. Ele acha que o meme é a resposta galhofeira do público capaz de dominar as expressões digitais mais simples, colocando fotos e criando piadas básicas sobre a situação política, econômica ou social do País. “O meme não tem profundidade jornalística, crítica ou analítica sobre os assuntos, sendo resultado de momento”, assegura.
“Com a sensação de impunidade criada pelo anonimato das redes sociais, os memes podem ser grosseiros ou engraçados. As charges também sofreram por essa falta de critérios dos leitores e pelo rebaixamento ético e intelectual das comunicações e hoje vemos imagens e textos que são grosseiros, agressivos e discriminatórios contra os adversários ideológicos”, completa o chargista pernambucano.
Triste retrato. A falta de humor deixa os brasileiros sem graça e sem poder de reflexão sobre o dia-a-dia da nossa sociedade. É isso.
P.S.: A republicação deste texto de outubro de 2019 mostra a sua atualidade. O Brasil anda devagar. É também minha homenagem aos que usam o humor para a crítica política, como Lailson de Holanda Cavalcanti (in memoriam -1952/2021), Walmir Chagas, RAL, Clériston e Samuka.
Por Antonio Magalhães – Jornalista




