Engana-se quem pensa que o julgamento de Bolsonaro e apoiadores pelo STF foi o de maior dimensão na justiça brasileira. Em Boi Pintado, no Agreste pernambucano, aconteceu o surpreendente Julgamento de Deus. Foi colocada no banco dos réus, nos anos 60, a maior entidade de todas as religiões monoteístas, como o cristianismo, judaísmo e islamismo.
E, no nosso caso, o símbolo mais relevante da civilização ocidental e acima de todos os crentes, como gosta de dizer um ex-presidente, como o cristianismo, judaísmo e islamismo. E, no nosso caso, o símbolo mais relevante da civilização ocidental e acima de todos os crentes, como gosta de dizer um ex-presidente.
O caso é descrito, como ficção, claro, pelo jornalista e escritor pernambucano José Nivaldo Junior no livro ‘O Julgamento de Deus’. O processo judicial, segundo os personagens foi um desafio e uma reação da esquerda ao regime militar que comandou por 21 anos o destino do Brasil. A oposição aos militares na pequena Boi Pintado, uma espécie de Macondo nordestina, formada por personagens curiosos e alguns reais, quis comemorar a seu jeito o 7 de setembro, data nacional.
Com o insólito evento, os pintadenses conseguiram dar uma dimensão planetária ao fato, como afirma o autor, revelando uma crítica inteligente a ditaduras, seja de farda ou toga. O julgamento do Todo Poderoso – que de algum modo banaliza Deus – recrutou entre os habitantes de Boi Pintado um corpo de sete jurados, um promotor de acusação sem formação jurídica, um advogado de defesa com conhecimento de leis por ouvir dizer e, um juiz que se daria mal até como árbitro de futebol.
A criatividade do autor permite ao leitor conhecer histórias fictícias ou não da política nacional e da religião católica. A iniciativa de Boi Pintado mexeu com a república dos militares, que quebraram a cabeça em Brasília para saber como agir, permitindo, no final das contas, que acontecesse o julgamento.
O caso também chegou no Vaticano, e, como relata o autor, a autoridade suprema da Igreja, o Papa, não se opôs, não permitindo, contudo, que o controverso arcebispo de Olinda e Recife da época fosse ao tribunal, para não dar maior dimensão institucional.
Para o Pontífice, segundo o autor, o júri era um mero ato de expressão política de jovens na data da Independência do Brasil. Além do mais, para aliviar a controvérsia e audácia de julgar o Todo Poderoso, a promotoria do caso argumentou que quem estava como réu era o Deus do Antigo Testamento e não o do Novo.
Tomando como modelo de acusador um militante da esquerda, amigo real do autor, José Nivaldo Junior narra nos capítulos finais do seu livro os crimes que Deus é acusado, de acordo com a promotoria de Boi Pintado.
“Deus. O Senhor Deus, criador do céu e da terra, de tudo o que existe é o maior criminoso da História, o ser mais cruel de que se tem notícia”, começa o promotor de capa preta nos ombros, impactando a plateia. “Ele é fonte de tudo o que existe, é responsável por todo mal, todo sofrimento, todas as guerras, golpes militares, sequestros, torturas, prisões políticas, ameaças, espancamentos e até xerifes”, diz o acusador arrancando risos. E indaga: “de onde tirei essas conclusões? Tirei da Bíblia”, enfatiza.
Depois de acusar Deus pelos erros desde a Gênese narrada na Bíblia, o promotor do julgamento divino se dirige ao júri: “Pensam que ficou só nisso. Requeiro a condenação do Senhor Deus de Israel por 2.270.317 assassinatos identificados pela promotoria no Antigo Testamento”.
“Crimes indiscutíveis e confessados em milhares de anos. Perpetrados que sejam diretamente pelo próprio Deus ou por ordem sua ou com seu consentimento. Foram dois milhões, duzentos e setenta mil trezentos e dezessete assassinatos, incluído o de Abel, morto por Caim”.
Fora do livro e para atualizar a conta, sabe-se que o número revelado pelo acusador de Boi Pintado sobre os supostos crimes de Deus é muito baixo diante das mortes promovidas conjuntamente pelos maiores tiranos do século 20, os comunistas Mao Tse Tung e Stalin e o nazista Hitler, com um saldo em torno de 120 milhões de assassinatos.
A plateia do julgamento de Deus em Boi Pintado também ouviu os argumentos da defesa do Todo Poderoso. Segundo o advogado do ouvi dizer, “o Livro Sagrado não é prova de nada na justiça terrena, é uma questão exclusivamente de fé. E não podemos condenar nenhuma pessoa ou entidade com base em crenças. Temos que nos apoiar na verdade dos fatos. Só a verdade devidamente comprovada pode servir de fundamento para uma sentença condenatória de qualquer natureza”.
A defesa enfatiza a falta de provas reais e prossegue: “Não existe crime sem vítima e muito menos sem autor. A promotoria não foi capaz de provar neste processo a existência de uma vítima sequer. E faço questão de chamar também a atenção para este ponto: nada foi demonstrado sobre o réu, sequer sua existência. Ora, se a acusação não provou que o réu existe, como quer que lhe imputemos uma condenação, mesmo que simbólica”.
Ouvidas a acusação e a defesa, sem provas reveladas além das Escrituras Sagradas, os jurados se recolheram para o veredito. O resultado da decisão do júri foi surpreendente, mas você leitor deste texto só saberá dele se adquirir o livro na Amazon.
Em tempo de justiçamentos e extrapolações legais, o livro de José Nivaldo Junior foi premonitório em levar irrealidades a julgamento em 2014. Ainda bem que dessa vez em forma de ficção. É uma leitura divertida no melhor estilo do realismo mágico latino-americano e bem instrutiva. É isso.
Por: Antonio Magalhães – Jornalista




