De quatro em quatro anos, nos meses que precedem a eleição, os candidatos têm a “liberdade” para mentir. Apresentam soluções simplórias para questões complexas. Desfazem supostamente os nós mais intricados da política e da administração pública. Claro, da boca para fora. E seguem imunes à punição que merecem os mentirosos, como o desmascaramento das inverdades e o escárnio dos ouvintes.
A verdade anda sempre mais devagar do que a mentira. Diferença de um Fusca para uma Ferrari. O hábito de mentir pode ser sofisticado ou tosco. Na primeira forma, a mentira adquiriu uma capa de contemporaneidade: passou de boato para fake news, um anglicismo babaca que dá nome até a inquérito em tribunal superior e está na boca de todos que praticam a difusão incontrolável de mentiras ou pós-verdades, outro nome dado por mentirosos elegantes.
Neste momento de tantas inverdades é uma boa hora para saber o que dizia sobre o tema o Santo Agostinho (354-430). Ele foi muito influente durante séculos e ajudou a formular o Cristianismo e a própria sociedade ocidental da Idade Média. Aurélio Agostinho, nasceu em Tagaste, mas morou, estudou, lecionou e tornou-se Bispo em Hipona, onde hoje fica a Argélia.
Segundo o doutor em Filosofia Marcos Roberto Nunes Costa, professor da UFPE há 30 anos, “ao analisar as várias facetas que assume a mentira, chegando a um total de oito tipos de mentiras por ele examinados, deixa entrever que a mentira vai além dos atos de fala e sinais, o que podemos dizer que, em Agostinho, a mentira não se esgota no domínio do engano, ela abrange também a simulação, a dissimulação, a omissão e o silêncio”.
Portanto, para Agostinho, de acordo com o trabalho de Costa sobre o santo católico, o mentiroso tem consciência ou sabe que está mentindo, mais do que isto usa de sua razão para mentir, para articular de forma inteligente o seu argumento falacioso.
Embora defenda o princípio geral de que “nunca se deve mentir” ou que “toda mentira é condenável”, Agostinho admite pelo grau de consequências, gravidade ou danos que elas causam, que haja uma hierarquização entre os tipos de mentiras.
Assim, em ordem decrescente de gravidade, partindo do pior de todos os tipos, a “mentira religiosa”, que é uma mentira mesmo que seja em nome de uma causa nobre, ou seja, mesmo que para converter e/ou trazer de volta o herege para o seio da Igreja, merece abrir a classificação:
1-mentiras em matéria de doutrina religiosa;
2-mentiras que prejudicam alguém e não favorecem a ninguém;
3-mentiras que favorecem alguém, mas que prejudicam outrem;
4-mentiras que se dizem pelo simples prazer de mentir;
5-mentiras que se dizem para agradar os outros com palavras bonitas;
6-mentiras que se dizem para proteger os bens materiais;
7-mentiras que se dizem para salvaguardar a vida;
8-mentiras que se dizem para conservar a pureza corporal de alguém.
Embora toda rejeição à mentira seja, no fundo, uma defesa da verdade, o problema, ou o que está em questão não é a verdade em si, mas a intenção de quem fala (ou cala), que pode ser má até quando fala a verdade”, conclui o professor Marcos Roberto Nunes Costa. É isso.
Por Antonio Magalhães – Jornalista e diretor de redação de O Poder




