O católico está confuso. Fiel da maior denominação do cristianismo que abriga mundialmente 2,6 bilhões de seguidores, vê internamente a maior parte do clero se bandeando para a esquerda e observa sem reação violenta a barulhenta e controvertida invasão do Islã no mundo ocidental como um risco ao futuro dos valores da nossa civilização. E pior é a negligência das lideranças cristãs em enfrentar este ataque externo e as contradições internas.
O próprio Papa Leão XIV pediu o fim da ofensiva militar dos EUA e Israel contra o Irã, mas não lamentou as 40 mil mortes de manifestantes em protestos contra o regime dos Aiatolás. Tido como um líder conservador, o papa americano tem agido com muita tolerância com os islâmicos, a ponto de autorizar a abertura de uma sala de orações voltada para muçulmanos dentro da Biblioteca Apostólica Vaticana, atendendo a pesquisadores daquela religião que frequentam o local.
Uma iniciativa dessa em favor dos cristãos seria possível num país islâmico? A convivência tolerante da liderança católica e de outras denominações cristãs com o Islã – que martiriza fiéis na Nigéria, queima igrejas até mesmo na Europa, persegue e violenta mulheres, mata homossexuais em seus países – é apenas um trágico episódio do esgarçamento do mundo religioso ocidental diante de tantos ataques.
Os Cruzados da Idade Média que foram libertar Jerusalém dos muçulmanos não imaginariam que milênios depois o cristianismo estivesse por um fio pela agressão dos descendentes de Saladino, seguidores de Alá e Maomé. E pior são os falsos líderes infiltrados na Igreja Católica num momento religioso muito delicado. Sabe-se que há uma incompatibilidade insuperável entre a religião e o comunismo.
Este último é baseado no materialismo histórico, que considera a religião uma “alienação” ou “ópio do povo” e que legitima a opressão de classe. Historicamente, regimes comunistas promovem ateísmo científico e perseguição religiosa. Pura verdade, com a conivência do Vaticano, por exemplo, a Igreja Católica só nomeia os bispos na China depois de aprovados pelo Partido Comunista (PCC).
O papado de Francisco foi um período de grande simpatia da Igreja Católica Romana pelo progressismo sem limite da esquerda mundial. O argentino recebeu em audiência no Vaticano os mais infames ditadores que, falsamente contritos, foram receber a bênção do pontífice. O então presidente boliviano Evo Morales foi além: deu de presente ao papa uma escultura dourada de uma foice e um martelo com um Cristo crucificado, simbiose incompatível com o catolicismo.
A escolha do Papa Leão XIV, depois da morte de Francisco, foi tida como a volta a uma igreja mais conservadora dos valores religiosos. Próxima à Igreja comandada por João Paulo II, com um papado tão marcante que foi declarado santo. Sobrevivente do Nazismo e do Comunismo na Polônia natal, Karol Wojtyla esteve à frente da batalha para derrotar os comunistas, favorecendo o fim da União Soviética.
Um feito desprezado por Francisco, formado entre os mentores da Teologia da Libertação, a ala mais à esquerda do catolicismo. Até agora, o papa americano, adversário de Donald Trump e amigo do esquerdista Barack Obama, tem agido como um verdadeiro “tucano”, em cima do muro, agindo com mais cautela do que o necessário.
No caso do Brasil, ele trocou o arcebispo do Santuário de Aparecida na maior igreja católica do país. Destituiu Dom Orlando Brandes que, por sua militância progressista, teve estendida sua permanência no cargo pelo Papa Francisco, e escolheu Dom Mário Antônio da Silva, com perfil mais conservador, ex-bispo de Roraima e presidente da Cáritas Brasileira.
Até agora, pelo menos publicamente, Leão XIV, depois da mudança prioritária em Aparecida, não conseguiu desarticular o principal aparelho religioso progressista do país, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Esta entidade é sempre ouvida pelo papa para a nomeação de bispos brasileiros. Os rebeldes para a conferência ficam nos bispados mais distantes e pouco influentes.
Os amigos, como o arcebispo Dom Paulo Jackson, ex-vice-presidente da CNBB, foi designado para o Recife, tradicional reduto de progressistas desde o bispado de Dom Hélder Câmara. Depois de sua aposentadoria, o escolhido por João Paulo II para a Arquidiocese de Olinda e Recife foi Dom José Sobrinho, de perfil conservador. Ele foi boicotado pela burocracia e imprensa até sua saída precoce.
Nesta Quaresma, a esquerda fez a festa na tradicional Campanha da Fraternidade, sempre lançada após o Carnaval. Os críticos da iniciativa da CNBB apontaram o viés ideológico e social em detrimento da espiritualidade quaresmal. Segundo eles, foram termos políticos em excesso (moradia social, políticas públicas) e falta de elementos teológicos (ausência de Eucaristia/Nossa Senhora), alegando inclusive desvio do sentido de penitência.
Por outro lado, esta CNBB, militante à esquerda, não deu qualquer acolhimento religioso aos condenados injustamente pelo STF por conta das manifestações de 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Apenas os pastores evangélicos consolaram os detidos e só eles vêm prestando assistência espiritual a este pessoal. Nunca apareceu um padre católico para confortar espiritualmente o ex-presidente Bolsonaro, que tinha como lema de governo “Deus acima de todos”. Contudo, um pastor esteve com ele na sua cela.
“Os cristãos devem, portanto, orar e vigiar, de olhos bem abertos para tudo o que acontece, porque há muitos ingênuos de um lado e muitas raposas velhas de outro, de olho em sua alma e em seu voto”, recomendam lideranças religiosas independentes. É isso.
Por Antonio Magalhães – Jornalista



