As declarações de Lula da Silva (PT) considerando a Ucrânia, os Estados Unidos e a União Europeia como corresponsáveis pela guerra com a Rússia quebraram o anel de vidro da imagem do presidente no exterior.
Lula não é mais visto como uma versão renovada de Nelson Mandela, um líder político que saiu da prisão para se tornar uma referência mundial com posições consensuais, mas o presidente oportunista de um país com interesses em um novo equilíbrio geopolítico.
Lula escorregou vergonhosamente para alguém com tanta experiência internacional. “A paz está muito difícil. O presidente [da Rússia] Putin não toma iniciativa de paz, o [presidente da Ucrânia] Zelensk não toma iniciativa de paz.
A Europa e os Estados Unidos terminam dando a contribuição para a continuidade desta guerra” e “é preciso que os EUA parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz” são declarações de um comentarista de TV, não de quem que se julga um estadista com condições de mediar um conflito que se arrasta há um ano.
Acuado pela reação internacional, Lula recuou. Na quinta-feira, em Brasília, depois de encontro com o presidente da Romênia, ele disse: “ao mesmo tempo em que meu governo condena a violação da integridade territorial da Ucrânia, defendemos uma solução política negociada ao conflito. Falei da minha preocupação com os efeitos da guerra que extrapolam o continente europeu”.
No sábado, em Lisboa, Lula tentou novamente se colocar como parte imparcial da guerra. “Não tenho lado, estou na terceira via, que é o da construção da paz. Todos acham que a Rússia errou, e já disse
Todos acham que a Rússia errou, e já dissemos isso. Infelizmente, a guerra começou. Agora, é preciso encontrar as pessoas dispostas a se sentar para discutir a paz. É isso que estou tentando fazer”, disse. O Presidente confirmou que enviará o seu assessor internacional Celso Amorim à Ucrânia, repetindo gesto feito semanas atrás quando o enviou à Rússia.
Os erros de condução de Lula na arena internacional revelam muito sobre sua dificuldade em aceitar que atitudes que deram certo nos seus primeiros governos não funcionam mais. Em 2003, falar contra a falar contra a Guerra do Iraque revelava uma independência intelectual e política em relação à Casa Branca. Não havia um outro polo além dos EUA e criticar o belicismo do governo Bush tinha mais efeitos retóricos do que práticos.
As idas-e-vindas das declarações de Lula sobre a guerra na Ucrânia revelam incompreensão sobre a importância da ameaça russa para a Europa e o peso dado pelos americanos ao novo papel da China.
Está mais difícil se equilibrar como uma potência que fala com todos, como Lula fazia nos primeiros mandatos. A nova conjuntura exige do Brasil mais cuidado e paciência do que o governo tem demonstrado até o momento.
Por Thomas Traumann – Jornalista
Foto : Ricardo Stuckert/PR




