O que lhe interessa mesmo é beneficiar a si próprio e a parentada próxima. Se contabilizada a maior parte dos casos de corrupção, vindos de desvios bilionários e lavagem de dinheiro, o destino é sempre a construção de mansões para a família, a compra de imóveis, depósitos em contas bancárias no exterior, abrigos de dinheiro vivo, automóveis e relógios caríssimos e fáceis de vender.
Tudo em nome de parentes-laranjas. Irmãos, tios, sobrinhos, cunhados, sempre dispostos a emprestar o CPF ou CNPJ para esconder o resultado do roubo. Em benefício dos seus, o corrupto abusa de posições de poder ou autoridade para obter vantagens pessoais. Astuciosas e conscientes do crime que estão cometendo, as famílias mafiosas avançam sobre os bens comuns dos brasileiros pela facilidade da ação.
Com base na confiança e lealdade sanguínea ou afetiva, típicas do crime organizado, esses grupos quando presos pelas autoridades amigas pouco se importam pela certeza de punições leves, quando são punidos.
A banalização de atos corruptos é um fato no país. Já foram desviados bilhões de reais em recursos dos orçamentos públicos da União, dos Estados e dos Municípios destinados à saúde, à educação, à previdência e a programas sociais, de infraestrutura, para financiamento de campanhas eleitorais e corromper funcionários públicos. E não houve até agora uma resposta adequada de quem deve fiscalizar à condenação do ilícito. A última iniciativa de combate a este crime acabou com o fim da Operação Lava Jato.
E o crime segue sem obstáculos. Nos últimos 12 meses, vem rolando no Brasil as consequências de dois escândalos de dimensões gigantes: o caso dos desvios dos benefícios dos aposentados do INSS e a liquidação do Banco Master. A revelação deles aconteceu em 2025, mas pouco a pouco o brasileiro vem tomando conhecimento dos envolvidos e suas famílias criminosas beneficiados pela corrupção.
Gente poderosa, com laços familiares semelhantes às máfias italianas, participou da expropriação dos parcos recursos de milhões de aposentados, que geraram para os larápios R$ 6 bilhões. E até agora os investigadores têm encontrado dificuldade para individualizar a culpa. Já a devolução do dinheiro roubado no INSS está sendo rateada entre os pagadores de impostos individualizados no seu CPF.
O mesmo se deu no escândalo da liquidação do Banco Master. Famílias diferentes, mas igualmente poderosas da Nação, foram felizmente expostas como mafiosas diante de tanta roubalheira de valores altíssimos. E não foi surpresa a divulgação dos envolvidos – você sabe os nomes – e suas famílias em fraudes fiscais, corrupção e lavagem de dinheiro.
Fala-se que os desvios foram em torno de dezenas de bilhões de reais, um pouco mais ou um pouco menos porque ainda não é possível contabilizar o total. O Mensalão ou o Petrolão são furtos de pequena monta diante do caso Master. E novamente, por envolver figurões da República e seus parentes, as investigações não andam e até CPIs são bloqueadas pela Suprema Corte. Por isso o Brasil aparece com nota baixa no índice de percepção global de corrupção.
Mas não estamos sós neste crime. Lá fora, a roubalheira do dinheiro público em benefício próprio do criminoso e sua família vem acontecendo em países do Primeiro Mundo e em subdesenvolvidos. Estes últimos veem seus recursos naturais serem usufruídos apenas por uma elite de larápios. Angola, por exemplo, tem um grande potencial de crescimento a partir da exploração do petróleo e da extração de diamantes.
No entanto, parte substancial dos recursos tem sido desviada do orçamento da nação para elevar a filha do ex-presidente Eduardo Santos à categoria de bilionária com investimentos fora do seu continente. Santos esteve à frente do governo angolano por mais de 30 anos. Toda a família do larápio angolano se deu bem: ajudou a filha a ser a mais rica da África, garantiu para si uma aposentadoria tranquila e rica e ainda abrigou a mãe numa mansão de cinema.
Passando por perto num táxi, quando estive em Luanda, no ano de 2004, o taxista apontou revoltado a imponência da casa da senhora Santos, mãe do ex-presidente. Ele esperou de mim um comentário ácido do absurdo da moradia. Mas só ouviu uma ironia que o deixou chateado: “a mansão é a prova de um filho que ama muito sua mãe”. Ele e milhares de angolanos entenderam neste ácido comentário que a família do corrupto vem sempre em primeiro lugar.
Por fim, lamentavelmente, estamos passando por uma situação muito delicada. Depois de tanto ouvir falar em combate à corrupção, promessas vazias sem mudar a atitude de quem deve punir este crime, o brasileiro sofredor dos efeitos do ilícito deixou de considerá-lo o maior problema da atualidade. Pesquisas de opinião na véspera da eleição dão conta que o foco dos candidatos na busca pelo voto será a segurança pública e o desempenho da economia, que mexe com o bolso de todos. É isso.
Por Antonio Magalhães – Jornalista




