Por Aline Mara Gumz Eberspacher*
A cada Copa do Mundo, o Brasil confirma um velho ditado: por noventa minutos, o país para. Ruas são enfeitadas, empresas interrompem o expediente, famílias se reúnem diante da televisão e milhões de brasileiros se transformam em comentaristas esportivos. Todos têm opinião sobre a escalação, a tática, a substituição que deveria ter sido feita ou o jogador que jamais deveria ter sido convocado.
O futebol faz parte da identidade nacional e tem o poder de unir pessoas de diferentes classes sociais, religiões e ideologias. O problema não é essa paixão. O problema é perceber que o mesmo brasileiro capaz de decorar o elenco completo da Seleção dificilmente sabe quem são os deputados que representam seu estado, como votaram nas principais pautas ou quanto custa manter a máquina pública.
A eliminação para a Noruega, um país frequentemente associado a elevados índices de desenvolvimento humano, educação de qualidade, baixa corrupção e alta renda per capita, poderia servir para algo além das análises esportivas e das discussões sobre futebol. Não porque exista uma relação direta entre desempenho em campo e esses indicadores, mas porque a comparação nos convida a refletir sobre as escolhas e prioridades de uma sociedade.
Quando a Seleção perde, inicia-se imediatamente um tribunal nacional. O técnico é questionado, os jogadores são cobrados, especialistas analisam cada lance. Ninguém aceita a derrota sem procurar responsabilidades. Na política, acontece exatamente o contrário. Escândalos bilionários são esquecidos, promessas eleitorais evaporam sem cobrança e investigações complexas passam despercebidas. A indignação dura menos do que um campeonato estadual.
Enquanto discutimos impedimentos e esquemas táticos, o Brasil segue enfrentando problemas estruturais que comprometem seu desenvolvimento há décadas. Na educação, os números são alarmantes: no PISA 2022, metade dos estudantes de 15 anos ficou abaixo do nível básico de leitura, e o país permaneceu distante da média da OCDE em matemática e ciências.
No Índice de Percepção da Corrupção de 2024, o Brasil registrou sua pior posição: 10nhb b7º lugar entre 180 países. E, mesmo com voto obrigatório, mais de 21% dos eleitores faltaram ao primeiro turno das eleições municipais de 2024. Esses dados revelam algo inquietante: o problema do Brasil não é apenas a corrupção, a baixa qualidade da educação ou a crise de confiança nas instituições. O problema também está na forma como nós, cidadãos, escolhemos distribuir nossa atenção.
Somos extremamente exigentes com onze jogadores, mas tolerantes com centenas de políticos que administram bilhões de reais. Sabemos quantos gols marcou o centroavante, mas ignoramos quantos projetos apresentou o deputado em quem votamos. Memorizamos a tabela da Copa, mas não acompanhamos a votação do orçamento que define o futuro da cidade onde vivemos.
Talvez essa seja a maior vitória da classe política: convencer a sociedade de que discutir política é desagradável, perigoso ou “coisa de especialista”. Nas famílias, recomenda-se evitar o tema. Nas escolas, ele é tratado com receio. Nas redes sociais, qualquer debate sério vira torcida organizada.
Nesse contexto, vale lembrar a célebre frase atribuída a Júlio César: “Dê às pessoas pão e circo; certifique-se de que suas barrigas estejam cheias e que elas tenham algo para ver e se distrair. Assim, elas não tomarão as ruas para protestar.” A provocação permanece atual ao nos fazer questionar quanto tempo dedicamos aos grandes espetáculos e quanto dedicamos aos debates que realmente influenciam o futuro do país.
Porque futebol desperta paixão, mas não decide o preço dos alimentos, a qualidade da escola pública, o atendimento no hospital ou a segurança das cidades. Quem decide isso não veste camisa amarela nem entra em campo aos domingos. Veste terno, toga, ocupa cargos públicos e toma decisões todos os dias.
A Copa termina em poucos dias. Os efeitos das decisões políticas permanecem por décadas. Talvez seja hora de entendermos que o futuro do Brasil será definido muito menos pela escalação da Seleção e muito mais pela qualidade da fiscalização exercida por seus próprios cidadãos.
Coordenadora de Pós-Graduação da Uninter*




