ANTONIO MAGALHÃES: PRA DIZER QUE NÃO FALEI DO BRASIL

O ódio a governantes democraticamente eleitos tem paralelos na história das democracias ocidentais. Nos anos sombrios da década de 1970,  em meio ao desânimo econômico e social do Reino Unido – Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte – surgiu uma opção conservadora para alavancar o desenvolvimento da Grã-Bretanha: Margaret Thatcher, a dama de ferro, vista como uma primeira-ministra eficaz na ação e intransigente nos seus propósitos.

Como conta o escritor conservador Roger Scruton, houve um júbilo da esquerda, formada no partido de oposição, e das universidades. “Afinal, havia alguém para odiar!” Após todos aqueles anos lúgubres de consenso socialista, viram que Thatcher era a melhor inimiga que poderiam encontrar.

“Um demônio real que entrava em cena e que tinha o topete de declarar o seu compromisso com a economia de mercado, com a liberdade do indivíduo, com a soberania nacional e com o estado de direito – em suma, com tudo aquilo que Marx tinha repudiado como uma ideologia burguesa”.

Segundo o escritor britânico, para surpresa maior de quem a atacava, ela não se importava em ser odiada pela esquerda, “deu o melhor do que tinha para governar e era capaz de trazer o povo com ela”.

“Ela queria que o eleitorado reconhecesse que a vida individual pertencia a cada um e que a responsabilidade de vivê-la não poderia ser exercida por qualquer outra pessoa, menos ainda pelo Estado”.

O autor do livro “Como ser um Conservador” diz que ela esperava libertar o talento e a iniciativa que acreditava ainda existirem na sociedade britânica, apesar das décadas de conversa fiada igualitária”.

A ideia dos antecessores de Thatcher era de que a vida econômica consistia na gestão das indústrias em funcionamento e não na criação de novas empresas. Eles compartilhavam a crença de que, caso a situação fosse mantida por tempo suficiente, as coisas dariam certo e qualquer culpa recairia sobre o sucessor.

Margaret Thatcher pensava diferente: em uma economia livre, a pessoa mais importante não é o administrador, mas o empreendedor – aquele que assume os riscos do negócio. “Quando ela afirmou que os empreendedores criavam coisas, ao passo que os gestores públicos as sepultavam, logo ficou evidente que ela estava certa, uma vez que todas as consequências da cultura de gestão estatal estavam ao nosso redor”, registra.

Há ainda quem pense que a incumbência do governo é a de distribuir riqueza coletiva da sociedade. Mas o fato é que a riqueza só pode ser distribuída caso antes tenha sido criada, questão que a esquerda nunca deu muita atenção, tanto lá como aqui.

Scruton conta em seu livro que Thatcher não era uma intelectual, mas era motivada mais por instinto do que por uma filosofia elaborada. Por isso ela foi esnobada pela academia e por políticos. E quase foi massacrada ao dizer que a sociedade é formada por indivíduos que se associam livremente e formam comunidades de interesse que os socialistas não têm o direito de controlar, nem qualquer autoridade legal para proibir.

O público britânico queria, segundo o escritor, um tipo de político instintivo que dirigisse a nação, não importando se tivesse ou não cabedal adequado de argumentos abstratos. Thatcher sentiu o escárnio soprado ao seu redor e se protegeu com conselheiros econômicos versados em soluções de mercado e na soberania do consumidor.

Todos os seus discursos mais importantes, assim como suas políticas imperecíveis, provinham de uma consciência de lealdade nacional. Ela acreditava no país e nas instituições. A família, a associação civil, a religião cristã e a Constituição (common law) estavam integrados em seu ideal de liberdade sob a lei.

Uma mulher e uma governante inesquecíveis para o Ocidente – do qual fazemos parte. Vale a pena conhecê-la melhor. É isso.

Por : Antonio Magalhães -Jornalista

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