A camisa Canarinha na Copa do Mundo de Futebol é uma espécie de bandeira nacional. Ela encarna o orgulho da Nação, a Pátria de Chuteiras, como dizia o dramaturgo Nélson Rodrigues. A Seleção Brasileira é a única Pentacampeã nas 22 edições do torneio. Há décadas, os atletas vitoriosos são homenageados com destaque profissional e social. E, mais recentemente, a glória vem sendo expressa em dinheiro, muito dinheiro.
Mas, no passado, nas primeiras copas que ganhamos – 1958, 1962 e 1970 – o mais valioso era estar no selecionado, o ponto mais alto que um profissional da bola poderia aspirar. O sucesso financeiro poderia vir depois ou não. No entanto, a representação da Pátria vinha em primeiro lugar. Hoje, este “manto sagrado amarelo”, que já foi tido como símbolo de grande valor patriótico, serve apenas para encobrir gordas contas bancárias.
Até a Copa de 1970, quando fomos tricampeões no México e ficamos de vez com a Taça Jules Rimet, o time brasileiro com seus craques de excelência e inesquecíveis, só recebeu prêmios mixurucas para vitórias maiores.
Segundo a imprensa da época, o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, deu de presente aos tri-vitoriosos 25 Fuscas verdes-musgo, zero quilômetro, comprados com dinheiro público da prefeitura. Levaram os automóveis os jogadores e à comissão técnica de futebol dias depois de terem levantado a taça no Estádio Azteca.
A Folha de São Paulo registrou que na entrega dos Fuscas, no Parque Ibirapuera, jogadores comemoraram o presente: “É o primeiro carro da minha vida”, disse Jairzinho, o “Furacão da Copa”. O lateral-esquerdo Everaldo afirmou que já tinha um automóvel e que daria o novo para a esposa. A mesma coisa prometeu Zagallo, o técnico, que possuía um Opala.
Na cerimônia de entrega, quase todos disseram que “presente não se vende”, segundo a reportagem da Folha relatou. A exceção foi o atacante Paulo Cézar Caju, que não “tinha problemas com isso”: disse que venderia o automóvel para comprar um apartamento. Ou o carro valia muito como lembrança do maior evento do futebol do mundo, um item para colecionador, ou o apartamento era uma kitnet com um único cômodo.
Vários jogadores acabaram se desfazendo do Fusca de Maluf logo depois de receberem o agrado – e o paradeiro dos automóveis se perdeu quase cinco décadas depois. Piazza, por exemplo, vendeu o fusquinha para investir em um posto de gasolina. O zagueiro reserva Baldochi conta que achava o Fusca pequeno – ele tinha 1,89 metro de altura. “Vendi logo depois. Eu queria um carro maior”, disse.
Os automóveis oferecidos por Paulo Maluf se tornaram um processo judicial de 36 anos – foi a primeira e, por muito tempo, única condenação do tradicional político paulistano. A Justiça considerou que ele lesou os cofres públicos sem beneficiar a cidade – depois de vários recursos, ele foi inocentado. E no período da absolvição, sem dúvida, não existiria mais um Fusca desses circulando pelas ruas.
Já o governo brasileiro não concedeu prêmios em dinheiro ou bens aos jogadores pelas vitórias em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 logo após os torneios. As premiações da época vieram de entidades privadas (como a CBF). Mas só em 2012 houve o reconhecimento governamental do feito dos campeões dos três primeiros mundiais.
O governo, então, sancionou o pagamento de um prêmio único no valor de R$ 100 mil para cada um dos 51 jogadores (ou seus sucessores legais) destas três copas: a de 1958, na Suécia, quando o Brasil deixou ser um vira-lata no esporte, segundo Nélson Rodrigues; a de 1962, no Chile, com Pelé contundido; e a de 1970, no México, com o time completo de craques: o goleiro Félix, na defesa Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo, no meio do campo Clodoaldo, Gérson e Rivelino e no ataque Jairzinho, Pelé e Tostão.
Para esta Copa do Mundo de Futebol que está acontecendo, a seleção campeã receberá uma premiação recorde de 50 milhões de dólares, paga pela Fifa. Este valor representa o maior prêmio individual já entregue na história do torneio. O montante faz parte de um fundo financeiro de 727 milhões de dólares (cerca de 4 bilhões de reais) distribuído pela entidade esportiva, o que representa um aumento de 50% em comparação com a Copa de 2022 no Catar.
A distribuição completa dos prêmios por desempenho na Copa inclui: campeão: 50 milhões de dólares; vice-campeão, 33 milhões de dólares; 3º colocado, 29 milhões de dólares; e 4º colocado, 27 milhões de dólares. Além da premiação por desempenho esportivo, cada uma das 48 seleções participantes tem garantida um fixo de 1,5 milhão de dólares destinado exclusivamente a cobrir os custos de logística e preparação para o campeonato
E caso o Brasil conquiste o título mundial, cada jogador da Seleção Brasileira receberá um prêmio individual próximo a 1 milhão de dólares (cerca de 5,2 milhões de reais). Em paralelo, a Fifa vem pagando aos clubes uma compensação diária (em torno de 5 mil dólares/25 mil reais por dia) por cada atleta convocado e cedido para o torneio.
Junto com os dólares da Fifa, os canarinhos selecionados vêm agregando uma receita de milhões de reais com publicidade. O campeão de anúncios é o Vini Jr, patrocinado pela loteria de apostas online Bets, operadora de telefonia e produtos esportivos. Já o Raphinha, fora do time por contusão, oferece produtos de beleza, shampoos, cremes e protetores solares para não encrespar a pele desse time fru-fru.
Ainda no rastro do prestígio do Tricampeonato de 1970, o jogador Gérson participou, em 1976, de uma campanha publicitária dos cigarros ‘Vila Rica’. O ex-jogador da Seleção Brasileira ficou famoso pelo bordão: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?! Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”, frase que originou o termo “Lei de Gérson”.
O termo ditado por Gérson foi associado ao conceito de que se deve beneficiar às custas dos outros de forma antiética popularmente conhecido como malandragem. O tricampeão viu a consequência do bordão e se arrependeu. Mas nunca a publicidade brasileira conseguiu identificar tão bem os praticantes de maus feitos nacionais, réus na lei da vantagem. É isso.
Por Antonio Magalhães – Jornalista




