“VERBAS DO STF TAMBÉM COMPROU RIOS DE CORRETIVOS PARA ENCOBRIR CORRUPÇÃO NO PAÍS”

Por Antonio Magalhães*

O corretivo líquido da Mercur custa R$ 4,20. Ele é usado, como se sabe, para cobrir palavras de  textos impressos com uma tarja branca onde se encontram erros de escrita. Agora ele tem uma nova função nesta república judiciária: cobre processos inteiros e suas sentenças sem qualquer possibilidade de correção. Em vez do pincelzinho original, estão sendo usados rolos de pintar paredes para encobrir com a “borracha” líquida os casos mais escabrosos de corrupção e lavagem de dinheiro deste país.

A verba destinada ao Supremo Tribunal Federal não foi só para lagostas e vinhos para degustação dos magistrados superiores. Uma parte substancial destinou-se à compra de centenas de litros de corretivos para tarjas brancas de amplo uso, encobrindo verdades provadas como no processo do triplex do Guarujá (SP) do ex-presidente Lula, patrono de uma pretensa república autoritária que nunca aconteceu por reação do povo brasileiro.  

A confirmação ontem pelo STF, por sete votos a quatro, da suposta parcialidade do ex-juiz federal Sérgio Moro no julgamento do processo do triplex, onde o ex-presidente Lula foi condenado em primeira, segunda e terceira instâncias por corrupção e lavagem de dinheiro, resultou na anulação de todas as ações judiciais e provas acumuladas. Lula deixou de ser um condenado para ser um ficha limpíssima. Coberto pelo branco do corretivo metafórico.

De pasta arrumada para deixar o STF em 12 de julho por conta  da aposentadoria compulsória aos 75 anos, o ministro Marco Aurélio Mello, liberou de vez o freio da língua e as travas corporativas para criticar a decisão de seus colegas no caso Moro. Ele deu um dos votos favoráveis ao ex-juiz, a quem ele chamou de “herói nacional”.

“Então, do dia para a noite, ou melhor, passado algum tempo, é tomado como suspeito. E aí caminha-se para dar o dito pelo não dito em retroação incompatível com os interesses maiores da sociedade, os interesses maiores do Brasil”, disse.

Pelo registro dos jornais da ontem (23), em seu voto, Marco Aurélio refez a linha do tempo que levou à anulação das condenações de Lula e, na sequência, à declaração de parcialidade do ex-juiz da Lava Jato.

“Existe uma máxima, um ditado: de que algo que começa errado tende a complicar-se em passo seguinte”, comentou ao repetir que ficou ‘perplexo’ com a decisão individual do colega Edson Fachin que declarou o juízo de Curitiba incompetente para processar as ações da Lava Jato envolvendo Lula e anulou as condenações do ex-presidente.

Daí, a Segunda Turma do tribunal superior partiu para o julgamento de um habeas corpus impetrado pelo ex-presidente Lula para que fosse avaliada a parcialidade de Sérgio Moro no caso do triplex de Guarujá. A base desse julgamento não poderia ter sido pior: áudios gravados ilegalmente por hackers, depois vendidos ao site de esquerda Intercept que os divulgou à conta gotas, revelando as conversas entre Moro e os procuradores da Operação Lava Jato.

Registra a imprensa que o decano do STF colocou sob suspeita o momento em que o julgamento sobre a conduta de Moro, que havia sido suspenso no final de 2018, foi retomado. O caso foi pautado por Gilmar Mendes na Segunda Turma logo após Fachin declarar a perda de objeto da discussão, já que as condenações de Lula haviam sido anuladas quando ele declarou a incompetência do juízo de Curitiba – o que pouparia o ex-juiz de passar pelo escrutínio do STF. Marco Aurélio afirmou que o caso ficou engavetado por mais de dois anos por um ‘perdido de vista’ de Gilmar.

A valentia de Marco Aurélio Mello na porta de saída não o isenta de equívocos judiciais, como a liberação para o sistema semiaberto do traficante de drogas André do Rap que nunca mais se reapresentou à Justiça. E também por outras votações contestáveis. Com o gesto de ontem, no entanto, Mello compartilhou o sentimento de injustiça contra Moro com brasileiros que não admitem roubos do dinheiro público.

Na vida que segue o corretivo líquido Mercur vai continuar sendo usado desbragadamente por este pessoal que comanda a república judiciária. Mas é importante lembrar que os  processos encobertos pela tarja branca metafórica já foram copiados ou memorizados pelos cidadãos de bem que não esquecem os malfeitos do ex-presidente e sua turma. É isso.

*Jornalista

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